O deserto do poeta

Texto cedido para comemoração do aniversário do poeta Geraldo Vandré.

Prepare seu coração
pras coisas que vou contar
eu venho lá do sertão
eu venho lá do sertão
eu venho lá do sertão
e posso não lhe agradar

Onde estão os homens? A gente está um pouco só no deserto, disse o Pequeno Príncipe. Entre os homens também, disse a serpente. O poeta maior, esse “Albatroz de Baudelaire”, ele se perde no rés-a-rés do humano convés. Ele se sente sozinho nesse deserto. Entre os homens também, ele se sente sozinho; o poeta maior.

Segundo Fernando Pessoa, só a abstenção é nobre e alta; pois só ela reconhece que a realização é sempre apenas o simulacro da obra sonhada.  Mas como é que nós, pessoas singelas, poderemos na sua abstenção, avaliar a grandeza dos sonhos do poeta? Ah, como precisamos preparar nossos corações!

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
e nos sonhos que fui sonhando
as visões se clareando
até que um dia acordei

Não fosse nossos poetas maiores, quem teria afastado de nós aquele cale-se? Teríamos passado pela História, conduzidos como gado; sem ter podido mostrar que, com gente é diferente! Não, nosso poeta maior, não se abstenha; não se cale. Sabemos que a rudez de poucos, desafinou vosso canto; mas não calou vossa poesia! Sabemos que eles podem “abafar o som dos tambores; e que podem afrouxar  as cordas da lira”. Mas quem poderá impedir que cante a cotovia?

E se perguntarem por mim, diga que vivi no tempo de grandes brasileiros. E que para falar só de alguns poetas, em cujas veredas contemplei-os em suas furtivas caminhadas madrugais, diga então que sou do tempo de Caetano Veloso; que sou do tempo de Chico Buarque de Holanda. Diga que eles imprimiram em suas respectivas trilhas, seus rastros indeléveis.

Mas diga! Diga que Geraldo Vandré, através do marasmo de mesmismo dos que andam à sombra, esperando acontecer, ele fez sua hora à plena luz do meio dia; e rompeu sua vereda com passos tão poderosos, que a folhagem à beira do caminho ainda se mexe, afetada pela sua passagem em disparada rumo à liberdade.

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
e já que um dia montei
agora sou cavaleiro
laço firme e braço forte
num reino que não tem rei.

4 comentários:

  1. Obrigada por este magnífico texto, que utilizamos no encerramento de nossa festividade pelos 73 anos de Geraldo Vandré.Foi declamado por João B.rezende e Sônia Bruno,na sede do Grêmio Musical paquequer-Teresópolis.

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  2. Maria Elisa Pereira28 de agosto de 2011 23:29

    sempre haverá homens e deserto a ser explorado.
    ELE ,o homem maior,nos permitirá sempre essa busca,poi o nosso caminho é estreito diante ds SUA sabedoria e inteligência.Tudo podemos desde que tenhamos consciência do caminho a ser trilhado.
    Depende só de nós e de nossa sabedoria amadurecida.
    Melisa 28/08 2011

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  3. Amorim:

    A diferença entre o Vandré e o Chico foi nas formas de silenciar.

    A continuar vendo a sua música adequada pela mídia, Vandré silenciou parando de cantar.

    Após denunciar, com a peça Roda Viva, as estratégias de adequação usadas pela mídia para as suas músicas, Chico Buarque continuou cantando, embora na sua "Fortaleza de um silêncio infame" (ver Calabar).

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  4. Belíssimo texto meu amigo. Viver é encontrar-mo-nos muitas vezes no deserto desse oceano medíocre em que vivemos.

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