O desejo e a posse


Considerando que ninguém deseja o que já possui, podemos discernir a realidade de que só valorizamos as coisas, enquanto pretendemos conquistá-las.

O desejo é o dispositivo que aciona o ego mecanismo que nos leva a construir o mundo ideal.
Doutra forma, bastaria possuir os bens no pensamento; sem precisar empreender o esforço de adquiri-los.

As coisas mais desejadas não são as mais saborosas, porém as mais atraentes, incluindo-se a beleza da mulher.

Enquanto para saborear precisamos possuir, para contemplar só precisamos sentir a atração!
O sentimento de felicidade ao contemplar a beleza do mundo independe de se possuir as coisas.

Ou essa felicidade seria tão efêmera quanto seja o tempo que precede o ato de adquirir.
Embora sua casa possa conter objetos muito atraentes, você equivocadamente desejará ainda mais os bens alheios, incluindo as tentações das vitrines.

Essas noções nos levam a considerar que sempre nos foi possível dispor de um mundo que é muito bonito, cheio de coisas fascinantes e que é todo nosso.

Temos as florestas verdejantes, temos o infinito céu estrelado, temos o sol e a chuva; sim, temos aquecimento, luz e água livres; temos o mar imenso, com suas extensas praias.
Esses tesouros são meus, são seus e são de todos aqueles que sabem considerar as riquezas que lhes são franqueadas.

Não precisamos trabalhar a vida toda para adquiri-los, pois quando uma coisa passa a ser somente nossa, ela perde seu sentido mais encantador que é a agradável sensação da conquista.

DO MEU PENSAR MAIS PROPENSO,
NÃO SÓ O MAIS INTENSO,
VEM TAMBÉM O QUE NÃO PENSO.

INFINITO TÃO EXTENSO,
MEU PENSAR É MAIS CONSENSO,
INDA MAIOR O QUE PENSO.

CONTEMPLANDO NÃO CONFUNDO,
VEJO TUDO NESSE MUNDO.
DO MEU PENSAR MAIS PROFUNDO,
É MEU SABER ORIUNDO.

EM MEU NEGAR MAIS PUNGENTE,
NEGO COISAS, NEGO GENTE.
NEGO QUERER TÃO PREMENTE,
NEGO QUE QUERO, SOMENTE.


Aforismo da Verdade

A verdade é como uma cortiça.
Pode permanecer oculta  em águas profundas  enquanto um corpo denso lhe retém.
Mas seu lugar é na superfície.

Cativeiro intrínseco

Embora os tesouros do universo pertençam aos Deuses, em sua sublime beatitude eles nos cedem o usufruto. Quando o beneficiário é legítimo cidadão, logo entende que o excedente dos benefícios alcançados deve ser repassado ao próximo ainda carente.

A mais ampla forma de liberdade, é a vontade de libertar o outro. Mas quando a alma é pequena e o coração é mesquinho, a criatura quer tudo para si, assumindo o cativeiro da fome insaciável.
Quando um estado de escravidão é estruturado no poder de um senhor sobre seu servo, ainda cabe alguma forma de libertação. Mas quando ocorre a conjunção senhor/escravo no mesmo ser, a pessoa se torna escrava de si mesma, e a escravidão se perpetua.

O poder financeiro de um homem próspero só lhe representa liberdade, enquanto atende suas carências mais legítimas. Essa legitimidade só é assegurada quando é destituída de qualquer traço de vaidade, opulência ou ostentação. As pobres criaturas reféns dessas forças devastadoras desvirtuam a graça dos bens alcançados, e com as chaves dos céus, abrem para si mesmas as portas do inferno.

É verdadeiramente preocupante saber que homens prósperos e prestigiosos podem aceitar que suntuosos objetos de mera ostentação; qual palacetes, carros e joias, venham ofuscar e até suprimir o mais autêntico prestígio que ainda detinham enquanto cidadãos honrados.

Essa carência de felicidade, essa busca desenfreada pelo prazer, são essas forças negativas que impelem as pessoas à degradação da dignidade e a sujeição à promiscuidade. Caberá ao senso seletivo da consciência de cada um, sobrepor-se às exigências primárias do corpo, buscando na alteridade somente o superlativo dos valores comportamentais.

Telemaranhadalcoolfonia

Piada - criada pelo filósofo em momento de humor


Informado que seu técnico vive de bar em bar
e quando de pileque mistura os cabos das Operadoras,
o gerente liga para saber e o pinguço confirma tudo:
OI, CLARO, VIVO TIM TIM.

A ÚLTIMA PARTÍCULA

No vestíbulo do templo divino,
as sandálias da divindade
e paramentos vestibulares.
Prosseguindo, sagrados objetos indumentários.
Perseverando, depara-se o cetro e as insígnias sagradas.
Alcançada a coroa divina,
dar-se-á a Epifania.

PERFÍDIA

Embora raramente,
ocorre no vastíssimo relacionamento humano,
uma manifestação psicológica muito sutil.
Quando a mulher admira tanto o intelecto do homem,
que para disfarçar, simula algum desprezo.

Ela pensa 
que eu penso 
que ela pensa
que sou um tolo.

Pois ela não sabe 
que sei 
que ela sabe
que não sou.

Sujeito/Objeto: Conhecimento

Conhecer, conhecer, conhecer.
De tanto verbalizar a Substância, consubstancia-se o Substantivo.
Embora só a venerabilíssima Divindade, seja conhecimento puro.

O artista

O artista,
que é um autista;
Será um altista,
ou também um altruísta?

Infinitude cósmica

Cosmólogos e físicos teóricos, considerando a infinitude cósmica postulam que qualquer ponto no Espaço é o centro do Universo.

Aqui, o filósofo propõe uma equação para esse postulado.





Quem somos?

                                                                Sossega, meu Eu; sê tu.
                                                                Sendo meu, Não sois eu! 

                                                                Por que impões teu querer;
                                                                Se pelos desacatos, 
                                                                E por todos teus atos, 
                                                                Sempre eu a responder?

Desvelo

Teu belo cabelo,
Me faz um apelo.

Mas mesmo sem vê-lo,
Prefiro teu pêlo;  

Que ao removê-lo,
Dás prova de zelo.



Pérola

Pera, és pera, pérola.
Me espera, és pérola.

Não me és pera,
sê-me pérola.

Não espera aqui,
mas espéro-la.








Um sentido para a vida

Aqui o filósofo considera em tríade, a síntese de uma trajetória ideal para a vida.


O mais justo sentido do trabalho, é a emancipação econômica.
O mais digno sentido da emancipação, é o restabelecimento da disponibilidade do tempo.
O mais nobre sentido do tempo, é a busca do conhecimento.

Que animal é esse, o homem?


A inteligência que nos concebeu, tem certamente um propósito determinado para nosso aperfeiçoamento. Era somente o grande laboratório da vida formado pelos oceanos. As ondas rolavam sobre as pedras, impregnando de espuma fértil toda a superfície porosa. A maré refluía, cumprindo seu ciclo de baixa-mar, deixando a espuma exposta ao sol. Vinha a preamar e suas águas enriqueciam a solução, dando à luz mais espuma fresca fertilizada pelos sais, resíduos e detritos dos elementos que as chuvas arrastavam para o mar, onde recebiam a poeira trazida pelos ventos e, ao ritmo cadenciado das ondas, dançavam o ballet pré-natal. Esse perene exercício repetitivo teria assumido tão amplo probabilismo, que viabilizou o surgimento dos primordiais compostos orgânicos que estruturaram a primeira amostra de vida unicelular. Veio a bi, a tri, a multicelular.

Evolução consciente

- Epistemologia -

Haverá corpo fora da matéria, vida fora do corpo, cérebro fora da vida, mente fora do cérebro, memória fora da mente, e consciência fora da memória?

Talvez o abandono do ninho pelo filhote, simbolize aceitavelmente o esforço empreendido pelos primeiros seres vivos para se libertarem da condição estacionária que lhes impunha a passividade da vida vegetativa, e que esse esforço os tenha impelido aos riscos da interação com a diversidade dos elementos componentes do meio ambiente. Esse árduo embate teria intensificado o exercício da função dos órgãos e membros primordiais, e estimulado a formação de outros, incluindo o advento do protomecanismo da central coordenadora das perdas e ganhos resultantes de tais confrontos, o que teria propiciado ao animal pensante hoje, deduzir que essa central coordenadora a que chamamos cérebro, teve início como resultante da interação entre o corpo e o meio ambiente.

Singularidade

Documento sem título
O filosofo incita as inteligências mais sutis, a decifrarem o enigma que propõe aqui:

Havia a singularidade e o recipiente.
E o universo foi constituído por esses quatro(?) elementos!

A necessária busca da perfeição


O conhecimento resulta do exercício de pensar o conflito das forças, no esforço da ação. Um estado de lassidão da mente e do corpo, não nos parece propício às grandes conquistas do pensamento. Ao menos no conhecimento teórico, esse exercício é tão intenso que quando as exigências já não cabem na física clássica, essa física já não cabe na efetividade epistemológica. Foi assim de Aristóteles a Newton, e está sendo assim de Einstein aos pesquisadores da revolucionária física quântica.

Talvez o êxito do conhecimento humano deva-se à comunhão - homus sápiens/homus faber . E essa reciprocidade é mantida pela simultaneidade do desenvolvimento do corpo e da mente.

O esporte, enquanto lazer (do latim licére - ser lícito, ser permitido, ter valor) assume a configuração da mais digna ociosidade; considerando que os deuses não precisam trabalhar, mas são ociosamente ocupados. E essa permissão lícita, aponta para um refinamento ético que censura o fato histórico de os senhores terem obrigado os escravos a trabalhar, quando só seria lícito, deixá-los viver prazerosamente.

O homem contemporâneo, libertado pelo esforço civilizador, assume a licitude da prática esportiva como atividade física regular, com fins de recreação e de manutenção do condicionamento corporal e da saúde. Tais fins representam o primeiro elemento da tríade lógicaestéticaética, sendo o segundo elemento representado pela boa aparência do indivíduo, e o terceiro representado pelo cumprimento do dever cívico de superar as limitações humanas; a exemplo do desempenho dos campeões, que em prol de toda a humanidade, cumprem abnegadamente essa tríade, enquanto imperativo categórico que impõe rigorosamente: seja lógico, para ser estético. Seja estético, para ser ético!

É com a lógica do intelecto e com a estética do corpo aprimorado, que cumpriremos a ética do estado de excelência que permeia a arte, o esporte e o trabalho, enobrecendo o ser humano em todas as suas atividades lícitas. 

Tomando as palavras de “O Profeta”, diremos que cada recorde de um atleta é o filho duramente gestado e parido através do seu esforço de campeão.



“Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas. O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com força, para que suas flechas se projetem rápidas e para longe. Que vosso encurvamento nas mãos do arqueiro seja vossa alegria.”
O Profeta - G.K.Gibran
“Eu vi elevar a obra através do cotidiano, apesar das invejas dos homens. Vi os escravos carregarem as pedras açoitados pelos guardas dos forçados. Vi o capataz roubar os salários. Ah, senhor! Eu era míope e achatava o nariz no objeto. Por isso só reparava na covardia, na estupidez e no lucro. Mas, do alto da montanha, vislumbro de repente um templo que se ergue para a luz.“
Cidadela - A.S.Exupéry
“Tem alguma ideia de por quantas vidas tivemos de passar até chegarmos a ter a intuição de que há na vida algo mais que lucrar, comer e angariar vantagens? Mil vidas, Fernão. Dez mil! E depois mais cem vidas até começarmos a compreender que há a perfeição. E ainda outras cem para nos convencermos de que nosso objetivo na vida é assumir essa perfeição e levá-la ao extremo.“
Fernão Capelo Gaivota - R.Bach

O ciúme

O ciúme,  talvez se assemelhe ao  sentimento que nos leva a preferir que a pessoa amada seja desprezada por todos.  Ao observar que sua amada atrai outros admiradores, o ciumento a considera infiel, embora seja apenas coerente.

Prece

Venerável criador e mantenedor desse nosso mundo. Assumo essa intercessão, por entender que vossa benevolência em permitir minha existência, já legitima meus atos de fé. É pois, confiante na evidência dessa tautologia, que ouso interceder junto ao magnificente esplendor do vosso poder, e rogar vossa misericórdia para com os pequeninos servos desorientados.

Pensamento e Sentimento


Talvez nossa verdade não esteja no plano superficial dos meros pensamentos, mas na profundidade abissal dos fortes sentimentos.
Quando Crises, o sacerdote de Apolo, soube que sua filha Criseide estava servindo como escrava no campo de guerra, pensou todos os males contra os gregos. Mas somente quando repudiado por Agamémnon após solicitar a libertação da filha, o sacerdote pôde assimilar os fortes sentimentos de revolta suficientes para obter do Deus Apolo, as severas punições contra o exército grego.

Julgar

Entre todos os méritos que concedem ao juiz a qualificação de meritíssimo, talvez o mais importante seja a maturidade psicológica que o leva a distinguir uma verdade, de uma falsidade.

Superando as paixões


Estando apaixonado, e surgindo algo ainda mais apaixonante, mude logo e continue mudando; pois negar o senso de evolução gradativa é prolongar a decepção. Haverá alguém mais apaixonante que a pessoa verdadeiramente amada?

Um filósofo não costuma justificar sua existência, pelo apego a uma mulher bonita. Embora seu corpo se deleite com migalhas de sensualidade libidinosa, seu espírito anseia por liberdade criadora. Que o amor dedicado à sua amada, liberto da libido, possa se estender por todas as criaturas.


Ouça na voz da magnífica Gal Costa, o que o imortal Noel Rosa em sua grande misericórdia, deseja ao outro, justificando a nobreza do que chamamos altruísmo.


Amor incondicional

Talvez o amor incondicional só se efetive, quando não se deseja sexualmente a pessoa amada.   Pois o sexo, longe de ser amor, é uma forma branda da agressividade que rege a relação entre presa e predador.

Vemos que o relacionamento entre parentes consanguíneos não passa por essa pujança, mas por uma psicodisformia sexo-repulsora, cuja ausência de normalidade do impulso libidinoso, inibe a relação incestuosa.

Na era dos homens

- Ética -

Tomba o guerreiro aos pés do Rei e fitando-o, clama:
dá-me senhor, a certeza  dessa  honra;
mostrai a face que se oculta no elmo Real.

Então, guerreiro; tua estima pelo Rei o faz
até na iminência de morte, desejar ter sido meu súdito?

    Não, Majestade. Pois ainda mais honroso que ser abatido pelo guerreiro soberano,  
seria abate-lo no confronto.

O monarca afasta a ponta perfurante da espada letal,
e no exercício de sua plena autoridade, como é peculiar aos corações nobres,
liberta o honrado guerreiro.

Os coloridos e o louro

- Conto infantil -

Não, crianças; o Seu Fuji Shì GõuExpressão da língua chinesa que significa "aquele que faz anzóis". não era um cabeleireiro que vendia falsas perucas louras. Ele era um simpático artesão que veio morar aqui, trazendo um negócio da china. Conta-se que chegou de navio, e que em sua bagagem todos os objetos eram feitos de arame fino, e que ao invés de caixas ou malas, tudo era embalado em grandes cestas também feitas em arame fino. 

Indagado sobre a estranha bagagem, Fují afirmou que só trazia um alí-cate, para fazer e vender aquilo, a quilo.Vemos que o Seu Fují fugiu da verdade, enrolou a alfândega com seu arame fino disfarçado em objetos, e logo que se alojou, começou a produzir terríveis anzóis que vendia aos pescadores. 

Um dos compradores era justamente o Seu FisherDo inglês - Pescador., um astuto inglês que morava perto. O negócio do artesão ia bem, até que o inglês teve a idéia de entrar em contato com seu primo americano chamado Mister SteelDo inglês - Aço, ou objeto feito de aço., que produzia na América um novo arame de aço que era inoxidável, e não enferrujava na água do mar como o arame de ferro que o Fují fingia que era aço. Junto com o novo arame, chegou também uma moderna máquina americana, que produzia anzóis aos milhares.  

Desocupado e triste, Fují  queixou-se ao inglês, que atenciosamente lhe instruiu para trabalhar com venda de peixes, ao invés de anzóis. Mas Fují não sendo pescador, rejeitou a idéia, até que Seu Fisher lhe ensinou: ouça, você pode criar peixinhos coloridos, e vender para decoração de aquários. E o artesão passou a ganhar muito com o novo negócio, até descobrirem que seus peixes coloridos eram em verdade, peixinhos comuns  habilmente pintados à mão, e postos à venda. 

Descoberta a fraude e ficando sem compradores, Shì Gõu chegou a xingar, mas logo ficou calmo, e passou seu negócio para Seu Joaquim, um velho pescador aposentado, que passou a produzir peixes coloridos autênticos, e tinha como ajudante em sua nova lojinha, um esperto e bem treinado papagaio que era ventríloquo. 

Toda vez que as crianças entravam na loja para comprar peixinhos coloridos, se assustavam com os preços altos, mas logo decidiam comprar, pois o louro malandro simulava um diálogo com os peixinhos, e olhando para um deles, dizia: olhe, peixinho, essa criança lhe achou muito bonitinho, mas diz que seu preço é muito alto. Então o peixinho “exclamava”: mas ela não sabe que eu sei, que ela não sabe que sei falar ! E a criança  afirmava:  sei sim, pô!  E logo comprava.
         
Agora, caro leitor, se você já tem um alí-cate aí, junte todo arame que catar, faça o que Fují fazia, venda a quilo, aqui, aquilo que o Fují vendia, sem fingir como o Fují fingia, nem fugir como o Fují  fugia. 

A dinâmica da Fé na física quântica

- Epistemologia -

Dynamis em grego é potência, força, poder. No plural, fala de grandes obras, grandes feitos, poderosa atuação; Dynameis.
                                              
Dynameis foi traduzido para o latim como virtus, virtutes, virtudes; ou como miráculum (do verbo mirari-admirar), estranho, admirável, milagre.          

Tendo-se que todo conhecimento requer homologação científica, e considerando que os grandes sacerdotes tem como resultado do constante exercício de seu pensamento religioso, o desenvolvimento de acurado senso psicológico; vemos então que a teologia tende a assegurar sua perpetuidade através da estrutura psicológica de seus insights, legitimando assim, a atualização de seu conhecimento.
                                                                                        
Essas considerações nos levaram a tomar a fé aqui, não como paixão, êxtase, fervor, enlevo ou crença; mas como certeza, força, poder:  poder pelo conhecimento, pelo saber, pela comunhão. Assim, ao invés de milagres da fé, temos dynameis da fé.

Fé: fidus, fides, fidelidade, engajamento, apego, avidez, sede, sofreguidão, fome.

Fome: carência alimentar, necessidade intensa de adquirir algo, vontade de comer.

Comer: tomar por alimento, ingerir, nutrir-se, saborear, sentir o sabor.

Sabor: gosto, senso, razão, sabenza, sabença, sapiens, sapiente, sábio, saber.

Saber: obter o sabor, ter bom paladar, sentir pelo gosto, inteligir, conhecer, apreender, compreender, incorporar, unir num só corpo.

Tomou o pão e, abençoando-o, partiu-o e o deu aos discípulos, e disse: tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice e dando graças, deu-lho dizendo: bebei dele todos; porque isto é o meu sangue. Mt. 26.26-28.

O peso específico da água é 1:1. Isso nos diz que um decímetro cúbico (um litro) de água pesa um quilograma; um metro cúbico de água pesa uma ton. Sabemos que quando um líquido se gaseifica, tem seu volume aumentado à razão aproximada de 1:800(1 por 800) e perde densidade, obviamente.

Se alguém dispõe de uma ton. de água e quer transportá-la para um local de nível mais elevado, não dispondo de meios mecânicos para bombeá-la, poderá valer-se de meios térmicos, elevando a temperatura até ao ponto de ebulição, e a água transformada em vapor poderá ser canalizada até ao local desejado, para onde irá por si mesma e, perdendo calor, voltará por meio da condensação, ao seu estado líquido anterior.

Para isso não é necessária a força de um gigante, mas a sutileza de um pensamento. A mudança do estado de um líquido ou de um sólido para o estado gasoso, passa pelo processo de aumento da freqüência do movimento vibratório molecular, na razão direta do aumento da temperatura. Temos assim que, se aumentarmos a temperatura, estaremos aumentando também o movimento molecular; e se aumentarmos esse, estaremos aumentando a temperatura, e poderemos fazê-lo até ao ponto de gaseificação do corpo aquecido, que perderá densidade até flutuar no meio ambiente. E como vimos antes, pensar com sutileza é conhecer, saber, ter fé! Então: Em verdade vos digo que, se tiverdes fé e não duvidardes, e a esse monte disserdes: ergue-te e precipita-te ao mar, assim será feito. Mt. 21.21.

Jesus, o Cristo (ungido) é a essência, o verbo, o pensamento, materializado. Enquanto essência da matéria, ele pode pensar a matéria. Cada molécula de um corpo material tem vida própria, ex-tensão própria e in-tensão própria. O pensamento do homem pode levar um bloco de moléculas em forma de uma barra de aço a atuar como peça de uma máquina, ou como um bisturi nas mãos de um cirurgião. Mas somos ainda a matéria pensante; não somos o pensamento (essência) materializante, mas o re-flexo desse pensamento. O homem não é ainda a Luz (o conhecimento, o verbo, a razão, o logos), nós os sapientes, somos o Lúcifer (porta luz), do saber. Por isso só podemos sutilizar -tornar sutil- a densidade da matéria, com emprego do fogo ou da fragmentação mecânica.  

O Cristo (ou o homem do futuro, que possa saber a matéria), pode pensar as moléculas e acelerar seus movimentos a ponto de gaseificá-las por aumento da temperatura e perda de densidade, de forma que uma montanha poderá tornar-se numa imensa nuvem e ser transladada pelo vento até ao local onde o pensamento devolva às moléculas o seu estado anterior, e a montanha volte a assumir sua forma primitiva. 

John D. Barrow é o astrônomo britânico que em parceria com o físico norte-americano Frank J. Tipler, em The anthropic cosmological principle, obra com 600 equações matemáticas, cerca de 1500 notas e referências bibliográficas, afirmaram: a vida, (como a conhecemos na mente humana) assumirá o controle de toda a matéria e de todas as forças, em todos os universos de existência logicamente possível.

E o Senhor fez retirar o mar por um forte vento toda aquela noite; e o mar tornou-se em seco, e as águas foram partidas. Ex. 14.21. 

Quando o Cristo sentenciou: Comei dele todos! Não sugeriu uma antropofagia, mas estava propondo que a assimilação de seus ensinamentos salvaria a humanidade da longa noite de treva e sofrimentos impostos pelo desenvolvimento lento e gradual do homem enquanto matéria. Era o Espírito Santo materializado, propondo o grande salto qualitativo: comei-me, assimilai-me, saboreai-me, sabei-me. Mas era cedo demais. Ele teve que ir-se. Ficamos, e mergulhamos na longa noite. E ainda estamos confrontando o homem, lobo do homem! Mas, se por amor, o filho de Deus se antecipou e veio cedo demais, por esse mesmo amor, ele voltará quando os séculos nos imprimirem a devida compatibilização.

Somos máquina organizada (composta de órgãos) para assimilar por in-gestão, a matéria enquanto substância, e transmutá-la em movimento energético (energia cinética), de forma que essa matéria em movimento vem assimilando (comendo) a si mesma enquanto matéria inerte (alimento) e aumentando sua complexidade, a ponto de já lograr produzir pensamento consciente de todos os fenômenos materiais já inseridos no acervo do conhecimento humano.

Retornemos ao início desse texto e consideremos a breve decomposição etimológica vista ali e poderemos compreender que, quando o Cristo disse: “Comei!” ele propunha: sabei pela assimilação, pela incorporação (união num só corpo) do saber já pronto; ao invés de buscá-lo penosamente na matéria enquanto matéria. Espiritualizai; ele pretendeu dizer. Mas era cedo! Repetimos.

Familiaridade não é o termo pleno para explicar o poder do Cristo sobre a matéria, mas esse vocábulo servirá para compreendermos a possibilidade que temos de vir a exercer esse mesmo poder. A ego-consciência é um mecanismo primário, provisório e bem compatível com a fase presente do desenvolvimento humano. É justamente através desse ardil, que a natureza nos impõe a compulsão da auto-sustentação da vida e da manutenção da nossa prole, assegurando assim a perpetuação da nossa espécie. 

Essa consciência parcial nos leva a pensar que a matéria componente do nosso corpo está à nossa mercê; que se organizou somente para propiciar nosso prazer de viver. Isso nos faz ignorar os legítimos propósitos da natureza, determinada a levar a matéria a pensar-se, para conhecer-se na multiplicidade de seus fenômenos. Não está interessada somente na simplória problemática da nossa manutenção, embora ceda para atender ao mister de nos mantermos duradouramente vivos, ínfima parte da poderosa mente que logrou desenvolver em nós.

Quando a maturidade secular substituir em nós, a ego pela pleni-consciência, saberemos então que somos um ente material dotado da faculdade de pensar, e essa identidade nos possibilitará pensar (mover) a matéria em todas as suas manifestações: pão, montanha,  mar... e não somente em nosso corpo onde, por exemplo, nosso pensamento ordena que um braço se erga, e toda a matéria que compõe o braço nos obedece tão fielmente.

Então, os geólogos do futuro, os sábios em geologia, os geo-logos; através do domínio quântico-cognitivo de cada elétron em cada átomo de cada molécula, poderá pensar a montanha, (pensar por ela, visto que seus componentes geológicos compõem também o corpo do pensador a nível molecular, onde se organizam em forma de mente humana) e sentenciar: Ergue-te e precipita-te ao mar!


Pérolas humanas

- Filosofia -

Certamente para dificultar a ação dos brutos, a Natureza procura preservar seus prodígios através da reação defensiva, ou pela sutileza da aparência simplória.

Na primeira forma temos os espinhos da roseira protegendo a rosa. Na segunda, disfarces em profusão: o diamante em sua condição natural è uma pedra opaca, de superfície irregular, e que nada revela das maravilhas de sua translucidez, luminosidade, transparência e brilho. A pérola se oculta no recôndito esconderijo das entranhas de uma pobre ostra estacionária e de aparência repulsiva.

Enquanto a rosa, protegida dos predadores suscita o romantismo contemplativo; as maravilhas do diamante só afloram através do gênio empreendedor do homem; e a pérola precisa libertar-se da ostra; há também as "pérolas" humanas que, disfarçadas na aparência singela, carecem de reconhecimento sutil para revelar sua doçura, até para si mesmas.

Conhecer pessoas, é assim como garimpar pedras preciosas. A gente junta as pedras, para das pedras a Pedra separar. E a gratificação não vem da posse, mas da descoberta. 

Mensagem de reconhecimento à dignidade de uma freira educadora

Logo ao despertar vejo a diáfana manifestação da aurora; no decorrer do dia sinto o fulgor do sol vivificante, observo o constante labor de abelhinhas que não param de trabalhar, e penso numa pessoa magrinha, linda, muito especial! 

Sinto-me impelido pelo frescor de uma brisa, pela ternura de uma respeitosa amizade; corro para o colégio e constato: a fonte de todo esse comovente sentimento é ela; a irmãe – Teresa “do Brasil” Paula da Silva.

Manifesto aos jovens brasileiros

- Sociologia -

Então, esperançosos jovens, cheguem bem perto e ouçam atentamente o pedido que lhes faço e que é tão somente o assentimento para o que segue:

Há, na Antropologia, um conceito denominado tendência étnica. Não consideraremos aqui, por que um povo tem tal ou qual tendência. Mas tem! Nos anos sessenta, os bravos estudantes brasileiros protestavam ferozmente contra os desmandos dos governantes de então. Aqueles governantes porem, ou estão hoje aposentados ou já faleceram; deixando seus cargos para a nova geração, representada justamente por aqueles estudantes, os quais agora governam o País. Se eram realmente bem intencionados, aqueles estudantes, então por qual “máquina de entortar homens” teriam passado? 

Mas agora, caros jovens, os homens entortados também já não nos interessam aqui. É de vocês que pretendo falar: vocês bem sabem que, por força da inexorabilidade, em breve o destino de nossa Nação estará em vossas mãos; e é por isso que ao invés de amaldiçoar os maus Políticos, volto-me para vocês. Estamos falando nesse momento de todos os jovens adolescentes brasileiros que, graças às circunstâncias sócio-econômicas, são favorecidos pela probabilidade de se tornarem governantes.

Por favor, considerem nobremente: Temos uma Pátria que é só nossa, e é também a única que temos! Em qualquer outra parte, seremos tratados como estrangeiros. O destino dessa  grande Pátria, dessa grande Nação, e desse grande País estará efetivamente em suas mãos, jovens brasileiros! Aqueles que tem a voz sufocada pelo horror do abandono, e que por não poderem se defender, atacam indiscriminadamente; eles também dependerão de vocês  para livrarem ao menos a prole, do funesto destino.

Precisamos ver o jovem pobre frequentando bons colégios e clubes comunitários com assistência orientada; e sendo encaminhados aos seus bons empregos, cujos proventos lhes possibilitem adquirir suas roupas bonitas, bicicletas, motos ou carros; para poderem passear com suas também felizes namoradinhas, em seus dias de folga, quando então estarão livres da terrível tentação da criminalidade. E serão vocês que, enquanto governantes, ao invés de espoliá-los através do ignominioso desvio de verbas, os assistirão com a solidariedade fraternal, se não paternal. Por amor a essa nossa grande nação, e por respeito às suas famílias, não cedam às tentações, jovens brasileiros. Evitem que a justa e esmagadora  mão do Grande Pai, tenha que abater-se sobre nós, para punir nossa corrupção.

Todo esse descalabro, toda essa insanidade social, toda essa famigerada vergonha corrupta e corruptora; tudo isso devemos ver com olhos benfazejos. Devemos antever que todo esse sofrimento atroz, teria propiciado o momento histórico para que vocês, jovens brasileiros, possam mostrar ao mundo inteiro, como se imprime em um povo, a mudança de uma torpe tendência chamada corrupção.

É necessariamente inevitável que a presidência da república e o comando das grandes instituições, incluindo os ministérios, as forças armadas e  todas as polícias; e a direção das grandes empresas estatais; dos grandes bancos; dos grandes meios de comunicação e das grandes e pequenas indústrias; estarão brevemente em suas mãos, jovens brasileiros! E dessa boa gestão dependerá o futuro do nosso povo.

Estamos falando enquanto suas mãos e suas consciências ainda estão limpas e assim poderão ser mantidas.  Agora mesmo, em suas tenras adolescências, vocês já  podem praticar um imenso bem ao nosso País: se porventura perceberem que seus pais, enquanto maus servidores públicos, chegam em casa vangloriando-se das misteriosas contas bancárias, repudiem-nos gravemente. E peçam às suas diletas mães, para heroicamente, fazerem o mesmo.  Não permitam que esses “abortadores de gênios” lhes favoreçam com o ganho fácil, pois esse,  não somente atrofiará vossa genialidade, mas maculará vossa honra.

É o que lhes peço, caríssimos.

O poder e o querer

- Ética -

Deus = essência = potência = liberdade > existência > ente > ego > vontade > ato > consumação > submissão.

Examinemos aqui, a razão do juízo de valor do fazer por querer, e o fazer por dever.
Considerando-se que o Supremo Ser, pode tudo que quer, mas não quer tudo que pode; talvez possamos entender a diferença entre poder fazer enquanto contenção de potência, e o querer fazer.

Tendo-se que a dotação do poder impele o fazer, caberá à quem faz, justificar o ato pela nobreza do propósito. Sendo a disponibilidade potencial representada pela liberdade de agir, o mais sublime emprego dessa liberdade, talvez seja justamente a concessão de existência ao ente. 

Podendo o Supremo Ser, enquanto pura essência, negar-se à existir; é livre em sua potencialidade para engendrar a existência, através do estabelecimento da entidade.

Sendo o ente, a forma do Ser existir; será movido pelo mais rigoroso motor pelos deuses já concebido, cuja síntese se manifesta nos humanos, através do ego.

Qual outro sistema lograria tal êxito, quanto o egomecanismo, perante tão profusa diversidade de criaturas, para ministrar a auto sustentação da vida a cada uma delas, não fosse a vida dotada dessa própria vontade de viver?

Se considerarmos que a vontade de agir é o único impulso que conduz ao ato voluntário, talvez possamos aceitar que todo agente é coagido por essa vontade soberana, e isso nos aumenta a responsabilidade ao julgar o ato.

Precedendo o ato, a vontade engendra sua justificação de modo tão determinado e inconsequente, que   não caberá ao agente considerar qualquer inconveniência resultante da consumação. Quem desvenda esse pequeno mistério, passa a compreender que só praticamos o mal, quando não resistimos à vontade de usufruir o bem que isso aparentemente nos faz.   

Consumado o ato, translada-se da côrte autônoma do fôro íntimo a liberdade de auto julgamento, e estabelece-se a submissão. Será o ente enquanto gerúndio do Ser, o lavo manus meas dos deuses? Não nos atrevamos a conjecturar! O Ser, na plenitude da liberdade de emprego de sua potencialidade, está livre de julgamento. Vemos que nenhuma carência lhe impõe vontade, pois quem tudo pode, nada quer.

No campo ético, talvez essas considerações nos ajudem a avaliar o risco de delegarmos poder às pessoas  incompatíveis com esse status, onde a vontade enquanto desejo as levará a praticar o delito, e o poder indevidamente assumido  conflitará com a justa submissão à punição. E ver nos humanos, uma autoridade submetida à punição carcerária, talvez não constranja somente aos homens de bem, mas igualmente aos Deuses. 

A nova senzala sem pão

- Sociologia -

A consciência criminosa,
ó criadores de ódio,
é produto da vossa alquimia.
A reação ao ressentimento,
ó indiferentes,
é a resposta ao vosso desprezo.

Quem vos fala aqui, é a sofrida consciência paterna que se estende sobre aqueles pobres adolescentes que deixam suas origens humildes e se dirigem às grandes cidades em busca do pão da sobrevivência. Se pudéssemos assumir a linguagem humana, talvez a vós que em troca de tão pouco e por tão longos períodos, lograis utilizar esses braços jovens, indagássemos: que fazeis desses nossos filhos? Vós os alimentais devidamente? Onde os pondes a dormir após os exaustivos dias de trabalho? Acaso os alojais nalgum cantinho onde possam com suportável constrangimento, considerar como suas moradias? O que recebem como presente de aniversário? Alguém lhes lembra essa data?

E no Natal, quando seus constrangidos corações sofrem o inevitável abalo adicional provocado pela beleza contagiante das multicoloridas caixas de presentes que circulam nas ricas portarias com destino às vossas residências? Que recebem esses vossos porteiros de edifícios, como presente de Natal? Se cada um de vós, que são tantos na comunidade, incluindo vossos filhos, entregásseis a cada um deles o mais singelo presentinho de Natal; certamente seus pobres corações vibrariam o suficiente para que eles se tornassem os mais fiéis dos vossos servos. Então não sabeis que a plasticidade dessa argila assume a abrangente gama de formas resultantes do vosso trato, e que se estende do mais dócil serviçal ao monstro mais abominável? Não sabeis que a ferocidade do assassino e o altruísmo do herói, são vertentes opostas da mesma energia a que chamais de coragem?

A Páscoa é outra oportunidade para que vós, sem o menor risco de vos despojardes de vossas riquezas, possais através do pequenino e tão representativo ovo de chocolate, consolidar os laços de fidelidade de vossos servidores que, como sabeis, vivem tão distantes de seus entes mais queridos.

Por que os abandonais tão cruelmente com vossa dilacerante indiferença? Por que vossos filhos e filhas não podem chamá-los pelos nomes e falar-lhes amistosamente? Por que protestais contra suas pequenas falhas com tanto desprezo a ponto de levar suas mentes despreparadas a planejarem como vingança a prática dos graves delitos, que justificam vossas decisões de entregá-los à polícia?

Não sabeis que assim como os recebeis jovens, fortes, dignos, para que vos possam servir em vossas construções, vossas fábricas e vossas residências, também deveis protegê-los e orientá-los para que, quando não mais possuírem juventude e saúde suficientes para servir-vos, possais vós então devolvê-los às suas humildes origens, se não com seus remotos sonhos de progresso representados pelo ínfimo pé-de-meia, ao menos com a dignidade de trabalhador preservada pela modesta aposentadoria?

Como podeis vós falar sobre a escravidão? Então não sabeis que outrora uma única casa grande alimentava e protegia centenas de escravos, enquanto que em vosso moderno sistema de escravidão, apenas dois ou três de nossos humildes filhos dedicam voluntariamente suas singelas vidas para servirem a tantas de vossas famílias no conglomerado a que chamais de edifício, essa nova senzala sem pão?

De onde vem esse desprezo formal que vos leva a jogar na lixeira de vossos confortáveis prédios os excessos de comida, quando sabeis que vossos servidores estão famintos? Vosso desprezo não martiriza só a eles, mas também a nós seus velhos pais; que muito sofremos ao imaginá-los em seus momentos de fome extrema, a lembrarem seus distantes casebres paternos, onde se saciavam regular embora modestamente, quando ainda eram nossas crianças.

O Rei, o Dragão e o Vulcão

- Conto -

A cidade dos dragões fica naquela colina bem próxima ao mar. Aliás, não é bem uma cidade; melhor seria chamá-la, a caverna dos dragões.

Conta-se que no passado bem remoto, havia sobre a colina um imenso vulcão que atormentava os súditos de um rei muito astuto. Todos os anos o vulcão entrava em erupção e lançava sua lava incandescente sobre as casas que formavam a cidadela no vale próximo à colina.

Os camponeses desabrigados e atormentados, formavam longas filas nas proximidades do palácio real, para pedirem proteção ao rei. Receoso que seus súditos abandonassem  suas terras, o rei convocou seus conselheiros e solicitou que apresentassem uma solução para o problema.

Várias foram as sugestões apresentadas, mas entre elas houve uma, que “saltou aos olhos do rei”. É que Elias, o velho sábio da corte, teve uma idéia realmente genial. O mestre sabia que entre os dragões que habitavam as cavernas, havia um terrível dragão negro, tão voraz que nos dias de muita fome, chegava a devorar árvores inteiras, com frutos e folhas. E essas árvores foram tantas, que os dejetos formados pela madeira queimada na fornalha de seu estômago, resultaram em enormes depósitos de carvão.

Lembrando-se das proezas do terrível dragão, o esperto Elias sugeriu ao rei, mandar fazer, poucos dias antes de iniciar-se a erupção anual do vulcão, um imenso bolo de aniversário; tão grande que pudesse circundar toda a cratera do vulcão.

A ideia do mestre se baseava no fato dele ter observado durante anos seguidos, que toda vez que se iniciava a erupção, o grande dragão deixava sua companheira bem distante e se aproximava sozinho, protegido por sua couraça de escamas pétreas, para recarregar nas labaredas do vulcão, seu mortífero lança-chamas.

Recortado em grandes fatias, o enorme bolo foi instalado em volta da cratera, de forma que ao entrar em erupção, o vulcão erguesse seu espigão de fogo bem no centro do bolo, dando a nítida impressão de enorme vela de aniversário.

Tendo observado na escura noite anterior, algumas fagulhas que antecediam a erupção, o bicho iniciou sua marcha colina acima, provocando tal reboliço no matagal, que logo foi percebido pelo velho sábio e sua gente.

Ao atingir a clareira no topo da colina, a grande besta deparou-se atônita com o “bolo de aniversário” atrativamente confeitado, tendo ao centro sua flamejante vela, tão longa que parecia tocar as nuvens. No mesmo instante, em estridente ritmo festivo, no intuito de levar o dragão a pensar que se tratava da comemoração do seu próprio aniversário, Elias ordenou aos seus músicos que tocassem e cantassem o conhecido “parabéns pra você”.

Não sabemos se o dragão foi influenciado pela tradição humana de soprar a vela, ou se pretendia evitar que o vulcão derretesse o bolo. Certo é que a fera recuou alguns passos até apoiar-se numa enorme rocha, de onde ensaiou ritmados movimentos musculares em seu avantajado peito, fazendo seus observadores perceberem seu intento. Ao inflar seus pulmões com tão espantoso volume de ar, ao aspirar, a vegetação próxima também era sugada, como se tratasse de imenso aspirador de pó.

O propósito do animal logo se confirmou com o trovoar do primeiro sopro. Atingida pela pavorosa rajada de ar, a “grande vela” se  curvou ao meio assumindo a forma de ferradura, e foi arrastada para o horizonte, até que sua base foi arrancada das entranhas da cratera e a grande chama foi arremessada ao espaço.

Não se sabe ao certo, mas dizem que os relâmpagos e trovões que até hoje ressoam no céu, são restos de fogo daquele vulcão que atormentava as pessoas. Outros afirmam que a grande chama em forma de ferradura voltou à terra e pousou no horizonte, onde de vez em quando ainda é vista e chamada de Arco-Iris.

Talvez por estar muito cansado e faminto, ou no intuito de repor o grande volume de ar expelido para apagar sua vela hipotética, ao invés de comer normalmente o bolo, o dragão aspirou de uma só vez o grande círculo açucarado. O imenso bolo alongou-se e fluiu para as entranhas da fera, como se tratasse de uma longa composição ferroviária, com locomotiva e muitos vagões entrando velozmente num túnel.

E foi assim que o rei, com sua bondade e inteligência, conseguiu extinguir o vulcão e salvar seu povo de um grande e repetitivo sofrimento. Sabemos que o vulcão é um fenômeno natural e que o homem nada pode contra a Natureza. Nesse caso porém, devemos considerar que tanto o vulcão quanto o homem e o dragão, são três diferentes manifestações da Natureza, que interagiram para corrigir o mal que prejudicava tantas pessoas.

O povo chamou o rei, o rei chamou o sábio, o sábio chamou o dragão e o dragão extinguiu o vulcão. Quando o intento é praticar o bem, o homem tudo pode, pois toda natureza estará no homem.

A exuberante floresta amazônica

- Ecologia -

Saint Exupéry foi piloto de aeronave e escritor.

Em seu livro “Terra dos Homens”, Exupéry descreve as aventuras vividas em consequência da queda de seu pequeno avião nas inóspitas areias do Sahara.

Faminto e sem provisões, enquanto aguarda a equipe de socorro, ele improvisa toscas armadilhas junto à pequenas tocas encontradas na areia. Pela manhã, vai inspecionar as armadilhas e constata que nada pegou; mas observa, nitidamente impresso na areia, o rastro de um animal, indicando ter saído da toca e seguido em busca de alimento.

Não resistindo à curiosidade, Exupéry segue o rastro e verifica tratar-se de um fénech (pequena raposa do deserto) e nos descreve: “segui o rastro do animalzinho até chegar ao guarda comida das raposas. De cem em cem metros, encontra-se na areia um minúsculo arbusto seco, de um palmo de altura: seus ramos estão carregados de pequeninos caracóis dourados. O fénech, pela madrugada, procura essas provisões. Mas eu esbarro, aqui, em um grande mistério da natureza. É que o fénech não se detém em todos os arbustos. Há alguns, carregados de caracóis, que ele desprezou; entretanto andou rodando à sua volta com uma visível circunspeção. Há alguns que ele abordou, mas sem devastar. Tirou dois ou três caracóis, depois mudou de restaurante”.

É que, se saciasse a fome com o que encontrasse no primeiro arbusto, em duas ou três refeições, o despojaria de sua carga viva. E assim, de arbusto em arbusto, ele impediria a procriação dos caracóis. Mas o fénech tem cuidado: respeita a lei da reprodução. Não somente procura para uma só refeição, centenas de arbustos, como também nunca deixa menos de dois caracóis no mesmo galho.

Tudo se passa como se tivesse perfeita consciência do risco que poderia ocorrer. Se não tomasse precaução, não haveria mais caracóis. Não havendo mais caracóis, não haveria mais fénech.

Mas, enquanto Exupéry nos fala do fénech, é o bom senso que nos faz pensar na triste história de outra “raposa” que vivia num grande planeta, habitado pela mais profusa variedade de animais e plantas. Cada espécie procurou adaptar-se às condições do seu meio ambiente e seguindo instintivamente as leis da natureza, preservar seu habitat. Havia porém na imensa variedade de animais, uma espécie que, pelo fato de ter adquirido a faculdade de pensar, conquistou a liderança sobre todas as outras. Não satisfeito em dominar os animais, nosso herói assumiu o propósito de exercer seu domínio sobre toda natureza.

De fato, o animalzinho pensante desenvolveu um conhecimento específico  que chamou de ciência, com quem “casou-se” em caráter inseparável, e de quem teve uma filha chamada tecnologia, à qual aqui chamaremos de Tec.

A fillha da ciência era muito caprichosa e exigia de seu pai, (o animal pensante) o atendimento de todos os seus caprichos. Tec não parava de ampliar seu universo de invenções, tão variadas como se possa imaginar; desde as mais subjetivamente úteis, às mais rigorosamente supérfluas. Para conseguir a matéria-prima necessária ao atendimento dos caprichos de sua filha Tec, o líder dos animais teve que submeter a natureza a imenso projeto de exploração de suas reservas.

Os elementos arrancados às entranhas do planeta, eram processados nos complexos industriais, e seus resíduos emanavam para o ar ou fluíam para os rios e mares, promovendo a poluição. Enquanto as indústrias consumiam os elementos da natureza (minerais e vegetais) para alimentar seus imensos fornos, produziam máquinas, aparelhos e equipamentos, que por sua vez também poluíam, enquanto consumiam vorazmente as reservas naturais.

O processo de devastação prosseguiu tão irreversível que eclodiu numa síndrome, cuja remanescência é representada por algumas “velhas raposas” bípedes chamadas homem, que sobrevivem a terrível adversidade de um deserto existente numa parte do pobre planeta, e que outrora se chamava: a exuberante floresta amazônica.

O diamante de Pitágoras

- Geometria -

De Pitágoras? Mas a "gema" não era egípcia? Semelhante ao diamante, que antes da lapidação não tem brilho, o grande teorema surgiu há cerca de 4000 anos no Egito. Mas foi o matemático grego que imprimiu sua marcante "lapidação", há cerca de 2500 anos.
Para legitimar sua autenticidade, muitos estudiosos inclusive Leonardo da Vinci, o submeteram à rigorosas provas matemáticas ao longo de sua história.
Aqui, o filósofo "lapida"uma elegante configuração geométrica, que constitui prova matemática do teorema de Pitágoras.
Acompanhe a construção, em seus passos conclusivos.




Passo 1


Considerando um triângulo retângulo ABC qualquer.



Passo 2


a² + b² = c²

O Teorema de Pitágoras afirma que
a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa.



Passo 3


Rebata o quadrado da hipotenusa sobre
o triângulo ABC e os quadrados dos catetos.
Assim o triângulo retângulo se reproduzirá
crongruentemente em EDA.


Passo 4


Trace a bissetriz ID, que divide exatamente ao meio os quadrados
dos catetos e o da hipotenusa, surgindo o polígono IDAB.


Passo 5


Trace o segmento HG. O triângulo retângulo
volta a reproduzir-se congruentemente em HGC,
e surge o polígono HGDI que sendo congruente
a IDAB por simetria ao eixo ID, têm área igual.


Passo 6


Removidos do polígono IDAB, os triângulos IKB e JDA,
e do polígono HGDI, o triângulo HGC,
ficaram os triângulos IHC e CGD, e o polígono KJAB,
que representam exatamente metade dos quadrados dos catetos
e metade do quadrado da hipotenusa.


Passo 7


Os triângulos HGC, EDA e ABC são congruentes.
Os quadrados HCBI e EDML são congruentes.
IB é paralelo a ED, e por simetria, KB é congruente a EJ,
e IK congruente a JD. Logo os triângulos IKB e EDJ são congruentes.



Passo 8


Sendo IKB e EDJ congruentes, a soma das áreas
de IKB e JDA é igual a área do triângulo HGC.


Passo 9


Divididos pela bissetriz ID, os quadrados dos catetos
e o da hipotenusa resultam respectivamente
nos triângulos IHC e CGD e no trapézio KJAB.
Sendo a soma das áreas dos triângulos igual a área
do trapézio, efetiva-se essa construção geométrica
que constitui prova matemática do teorema de Pitágoras.

Noções epistemológicas do "vôo" dos peixes.

Vemos que o vôo das aeronaves mais se assemelha ao nado dos peixes, que ao vôo dos pássaros. Observe-se num lago, como os peixes articulam as barbatanas "enquanto aletas" como fazem as aeronaves, para alterar a direção do movimento ou o nível da imersão. Eles utilizam as barbatanas também em ação hidrodinâmica ativa, como propulsores (remos), para acelerar o movimento; e quando querem parar bruscamente, utilizam todas elas simultaneamente em frenagem de ação hidrodinâmica passiva, conforme as utilizam enquanto leme. Utilizam as barbatanas ainda como remos para pequenos deslocamentos, mas para manobrar quando parados, opõem sincronicamente o lado remo ao lado leme, e giram como compasso, sem transladar. O movimento simultâneo das barbatanas é também combinado com enérgicas flexões ondulatórias de todo o bojo, e do vibrar frenético da cauda, para aceleração explosiva na fuga do predador, ou no ataque à presa.

Bem observado?

Coquetel de cirandas

Essa rua, que é nossa 
já mandei ladrilhar
com ciranda, cirandinha
todos vamos cirandar.

Dona xica, admirou
dessa rua, como está
Teresinha, de Jesus
não vai mais escorregar.
                              
O anel, que tu me deste
é de ouro e não quebrou
o amor, que tu me deste
é do mesmo que te dou.
                             
Teresinha,ficou linda
e já pode afirmar
nunca mais, bato no gato
todos podem comprovar.

Nessa rua, que é nossa 
cirandinha vem morar
dona xica, já chamou
Teresinha pra olhar.
                             
Cirandinha, prometeu
no gatinho não bater
já chamou, os cavalheiros
pro bichinho proteger.

Dona xica, admirou
ao chegar a Teresinha
as pedrinhas, de brilhante
encantaram a cirandinha.
                             
Teresinha, deu a mão
para a rua apreciar
disse um verso, bem bonito
pra dona xica admirar.

O deserto do poeta

Texto cedido para comemoração do aniversário do poeta Geraldo Vandré.

Prepare seu coração
pras coisas que vou contar
eu venho lá do sertão
eu venho lá do sertão
eu venho lá do sertão
e posso não lhe agradar

Onde estão os homens? A gente está um pouco só no deserto, disse o Pequeno Príncipe. Entre os homens também, disse a serpente. O poeta maior, esse “Albatroz de Baudelaire”, ele se perde no rés-a-rés do humano convés. Ele se sente sozinho nesse deserto. Entre os homens também, ele se sente sozinho; o poeta maior.

Segundo Fernando Pessoa, só a abstenção é nobre e alta; pois só ela reconhece que a realização é sempre apenas o simulacro da obra sonhada.  Mas como é que nós, pessoas singelas, poderemos na sua abstenção, avaliar a grandeza dos sonhos do poeta? Ah, como precisamos preparar nossos corações!

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
e nos sonhos que fui sonhando
as visões se clareando
até que um dia acordei

Não fosse nossos poetas maiores, quem teria afastado de nós aquele cale-se? Teríamos passado pela História, conduzidos como gado; sem ter podido mostrar que, com gente é diferente! Não, nosso poeta maior, não se abstenha; não se cale. Sabemos que a rudez de poucos, desafinou vosso canto; mas não calou vossa poesia! Sabemos que eles podem “abafar o som dos tambores; e que podem afrouxar  as cordas da lira”. Mas quem poderá impedir que cante a cotovia?

E se perguntarem por mim, diga que vivi no tempo de grandes brasileiros. E que para falar só de alguns poetas, em cujas veredas contemplei-os em suas furtivas caminhadas madrugais, diga então que sou do tempo de Caetano Veloso; que sou do tempo de Chico Buarque de Holanda. Diga que eles imprimiram em suas respectivas trilhas, seus rastros indeléveis.

Mas diga! Diga que Geraldo Vandré, através do marasmo de mesmismo dos que andam à sombra, esperando acontecer, ele fez sua hora à plena luz do meio dia; e rompeu sua vereda com passos tão poderosos, que a folhagem à beira do caminho ainda se mexe, afetada pela sua passagem em disparada rumo à liberdade.

Mas o mundo foi rodando
nas patas do meu cavalo
e já que um dia montei
agora sou cavaleiro
laço firme e braço forte
num reino que não tem rei.

Isentos do mal?

Óh, sublime divindade.
Posto que a nós os humanos, não cabe sequer a intenção de censurar-vos; entendemos pois, nossa incapacidade em compreender: por quê a tantos prodigalizas a estupidez, enquanto a poucos, desse predicado a escassez.

A relatividade de uma verdade efetiva e a efetividade de uma falsidade relativa - em filosofia.

Um soldado veterano para um aventureiro:
no final da guerra, meu comandante reuniu muitas peças de ouro saqueadas das cidades vencidas e as fundiu em uma única barra, tendo me ordenado a ajudá-lo a transportá-la num veículo militar através das inóspitas areias do deserto.

Ainda muito longe de casa e já sem combustível, abandonamos o veículo, ocultamos a barra de ouro na areia e elaboramos um minucioso mapa do local.
Caminhamos por muito tempo, mas o velho comandante não resistiu à jornada e eu cheguei em casa sozinho, trazendo o mapa.

Se você aceitar, podemos voltar ao deserto e recuperar a barra de ouro, nas seguintes condições:
darei uma cópia fiel do mapa e lhe levarei ao local, onde escavaremos a areia até encontrar a barra de ouro. Quem encontrá-la primeiro será o dono incontestável do tesouro.

Fizeram o pacto e foram para o deserto, onde começaram a escavar a areia. O veterano reencontrou a barra de ouro más, avaliando a dificuldade de carregá-la sozinho, manteve sigilo e propôs ao aventureiro: ouça, como a barra é muito pesada e ficaria penoso para um de nós levá-la sozinho, não seria melhor carregá-la juntos, e dividir seu valor pelos dois?

O aventureiro considerando que assim seria lesado caso encontrasse primeiro, retrucou protestando:
Não, trato é trato. Quem achar primeiro é dono!

O veterano calou-se e deixou o aventureiro continuar procurando, até gritar: Achei e é somente minha! Logo preparou algumas alças com a corda que havia levado, e cavando um fosso na areia junto a barra ainda semi-encoberta, ajoelhou-se no fundo do fosso, ajustou as alças, e ergueu-se com a pesada barra de ouro pendente dos ombros e apoiada às costas. Dirigiu-se sofregamente rumo à Cidade, sem dirigir uma única palavra ao veterano, que o seguiu com passos comedidos.

Caminharam, caminharam, caminharam até que o aventureiro faminto, sedento e exausto, caiu sobre a areia inclemente, e faleceu por inanição a uma distância da cidade, compatível com a escassa reserva de energia do veterano, que até ali tinha viajado sem sobrecarga.

                          
                       No campo dos confrontos,
                       uma verdade se torna tão preciosa,
                       que precisa ser protegida
                       por uma legião de mentiras.
                      W. Churchill.


                    Conhecerás a verdade,
                    e a verdade vos salvará.                   
                    Jesus Cristo.

O sorriso do Poeta.

- De como a filosofia vê a poesia e o mito -

No Homem, todo vislumbre onírico está sujeito à vigília dos deuses, com surpreendente exceção da poesia. Só o poeta está livre. Os deuses vêem a poesia e o riso como únicas flechas humanas capazes de atingi-los. Em sua divina abstração, eles não aceitam o estado etéreo dos espíritos livres, visto que esse estado se assemelha ao abstrato.

Subtraindo calor do plasma primordial, os deuses solidificam os seres etéreos; e a cada porção dessa matéria amorfa, corresponderão os corpos cuja tangibilidade os torna manipuláveis pelos deuses. Se quereis atingir um ser etéreo, fazei-o enquanto ele permeia um corpo vivo, pois é na vulnerabilidade do vivente que a vida se deixa afetar.

Por meio dessa semeadura de vida em corpos físicos os deuses logram colher obediência, visto que enquanto materializada no corpo tangível a Vida tende a obedecer, e submete-se aos rigores da existência, vivenciando o que chamamos de destino, imposto implacavelmente pelos deuses.

Para angariar a cumplicidade do vivente no esforço de sustentação da vida, os deuses teriam concebido a juventude, a saúde, a beleza, a riqueza, a sabedoria e a disponibilidade do tempo. Mas os concedem tão sutilmente separados que tornam impossível obte-los simultaneamente, nessa quimera chamada felicidade. “Perder uma luva é uma dor profunda! Mas não se compara com a dor pungente, de se perder uma luva, jogar a outra fora, e achar a primeira novamente”. É justamente a essa intangibilidade da felicidade que Sileno se refere quando defrontado por Midas:

A mitologia, antecessora do conhecimento científico, propunha uma conclusão para cada dilema; e para explicar o conflito paradoxal daquele que nada tem, por querer tudo que pode, teria engendrado o mito do rei Midas, aquele alquimista mor que transformava em ouro tudo que tocava.

Por não saber como tirar felicidade de seu dom, o rei resolveu consultar o sábio deus silvestre Sileno, preceptor do deus Dioniso e mentor de deuses, reis e heróis. Midas já sabia que devido à importância de Sileno enquanto consultor, a duração de sua breve aparição era sempre proporcional ao nível de sabedoria do consulente.

Defrontado com o magnífico mentor, Midas indaga incontinente: Diga-me mestre, qual para o homem é o maior dos bens? De si para si, Sileno reflete rápido: - até Midas, esse que tudo tem, ainda procurando a felicidade? Resoluto, profere a terrível sentença: - “Ó raça de efêmeros farsantes; por que perguntais justamente o que não gostaríeis de ouvir? Então não sabeis que para o homem o maior dos bens é não ter nascido? Todavia, o segundo maior bem ainda podeis alcançar, no pronto perecer!”.

Mas Sileno, embora habituado a observar a soberana mão de ferro com que Zeus poderoso trata os mortais, não poderia avaliar a possibilidade de surgimento das "flores do mal": de tão manobrada pelos deuses plenipotentes no mister de impor seus desígnios, a alma humana teria assumido tal estado de plasticidade que lhe possibilita escapar por entre os dedos soberanos e, homericamente, impor aos deuses a problemática resolutiva dos dramáticos conflitos humanos.

É o que podemos observar quando o poeta consegue levar os deuses a compartilhar o nosso destino. No canto XVI da Ilíada, podemos ver como Zeus se aflige ao contemplar o destino trágico de Sarpédone: - “Pobre de mim! O Destino asselou que o mais caro dos homens, o meu Sarpédone, tombe hoje aos golpes de Pátroclo exímio. O coração, sinto agora, indeciso entre dois pensamentos: levá-lo-ei para longe da pugna lugente, e o coloco neste momento, com vida, entre o povo opulento dos Lícios, ou deixarei que do vigor lhe despoje o viril Menecíada?”.

Poderíamos tomar a poesia como uma ponte  entre as trevas da submissão e o fulgor da divindade? O poeta enquanto construtor de pontes fica sob a mira dos deuses e, como se para aplacar-lhes a fúria, tal o faz magistralmente Fernando Pessoa: "chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente".

Os deuses bem o sabem quão terrível é a missão que legaram aos humanos e, por isso mesmo, agraciaram-nos com a temerária arma do riso; tão perigoso que eles mesmos quase não o utilizam. A faculdade do riso, pertencente aos deuses e cedida somente aos humanos, condicionalmente; dependendo do critério de emprego, pode denotar nobreza como o faz o riso complacente ou solidário, ou torpeza como o faz o riso ignominioso.

Como os deuses não carecem de nobreza e repudiam a torpeza, embora tolerem que o poeta a eles se dirija por meio da poesia, não admitem que o ridente ouse apontar sua ínfima seta do riso contra o Olimpo, sob pena de ser fulminado pela hefésticaRelativo a Hefesto, o armeiro dos deuses. Ele fez o escudo de Zeus, arco e flecha de Apolo e a armadura de Aquiles. flecha argentaFeita de prata. de Apolo, o infalível arqueiro de Zeus.

Páginas